Two players, two sides. One is light, one is dark.
Two players, two sides. One is light, one is dark.

 

Em 1992, minha mãe me presenteou com um boneco de madeira do Pinóquio. Ele era bem bonito e todo articulado, quase um menino de verdade. No entanto, eu fiz um escândalo digno da criança de três anos que era porque o brinquedo que mamãe havia dado para minha prima parecia mais atraente.

Em 1995, eu roubei o brinde da quermesse de uma amiga e o levei para casa anunciando que tinha ganhado na pescaria.

Em 1996, pisei na margarida que um colega tinha me dado e fiz com que a turma inteira risse dele pela demonstração de afeto.

Em 1998, caçoei de meninas da sala por serem excessivamente femininas.

Em 2001, por usarem saias curtas.

Em 2004, me calei diante das piadas que amigos faziam com um garoto que provavelmente estava no espectro do autismo.

Essa é a timeline de erros que estou disposta a assumir publicamente. Tantos outros eu prefiro que fiquem restritos às minhas sessões de terapia ou tortura pessoal antes de conseguir pegar no sono.

Acredito que a única premissa tão verdadeira quanto “um dia você vai morrer” seja “você vai cometer erros”. Alguns bobinhos e sem maiores consequências; outros, de proporções assustadoras. De alguns você será a única vítima; de outros, o único beneficiado. Você pode remoê-los para sempre ou deixá-los no passado, mas isso não os torna menos reais.

Eu tenho uma obsessão diagnosticada pela perfeição – em mim e nos outros. Visito momentos em que pessoas queridas cometeram deslizes, tentando me convencer de que elas estavam justificadas em suas escolhas. Um hemisfério do meu cérebro batalha para tentar absolvê-las, enquanto o outro exerce seu julgamento implacável. Sujeito todos os meus atos e pensamentos ao mesmo escrutínio. São meses e meses de angústia ruminando cada pequeno desvio. Eu te perdoo, mas eu jamais esqueço. Eu me perdoo, mas eu jamais esqueço.

Por vezes me pergunto como posso ser tão empática a ponto de adoecer devido ao sofrimento do outro e tão cruel a ponto de condená-lo por um erro. Esse maniqueísmo que não me permite aceitar a coexistência de luz e escuridão em você e em mim é a fonte dos meus transtornos psiquiátricos e do meu comportamento antissocial.

Lá no Your fave is problematic aprendi que pessoas responsáveis pelo avanço nas discussões de papéis de gênero foram racistas. Que pessoas louvadas pelo movimento negro foram transfóbicas. Que grandes representantes da luta transsexual também policiaram os corpos alheios. Que vítimas agrediram e que agressores foram vitimados. E que eu não era a única disposta a reduzir toda a complexidade de um ser humano a uma lista de seus piores momentos.

É importante problematizar o que é problemático. O mundo é problemático, eu sou problemática, você é problemático. Vamos dizer e fazer coisas horríveis que nos foram ensinadas e que nos parecem naturais, e nosso crescimento como indivíduos e como coletivo depende do reconhecimento desses problemas. Mas usá-los como argumento final para invalidar tudo que alguém ou algo possa representar não me parece o melhor caminho.

Meu avô materno era alcoólatra e abusivo. Hoje ele está morto e eu me pergunto se ele foi mais do que isso. Deve ter sido. Ninguém é uma coisa só.

 

 

 

“Your fave is problematic” is problematic
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